Campos 24 Horas – Basta que os tutores mudem o tom de voz para uma entonação agudizada e entusiasmada ao chamar o nome do pet para que a cena se repita: o cão — ou gato — vira ligeiramente o pescoço, fixa o olhar e levanta as orelhas. O gesto, considerado fofo, desperta curiosidade e tem sido objeto de análise por pesquisadores e especialistas em comportamento animal.
Longe de ser apenas um mero movimento, a inclinação de cabeça revela a complexa engrenagem cognitiva e sensorial voltada para o processamento da comunicação humana.
De acordo com Karla Bretz, médica veterinária e professora da Newton Paiva Wyden, esse gesto surge como uma resposta direta à atenção do pet. “Nos cães, a inclinação da cabeça parece ser uma resposta associada principalmente à atenção e processamento de informações comunicativas. Quando usamos uma fala mais direcionada ao animal, com entonação marcada, nome do animal ou palavras que ele aprendeu a reconhecer, estamos oferecendo vários sinais simultaneamente: som, entonação, emoção e contexto”, explica.
Ela pondera, porém, que o ato não indica necessariamente que o pet compreende tudo: “O comportamento provavelmente resulta da interação entre atenção, percepção auditiva, experiência individual e contexto”.
Processamento cognitivo e percepção das palavras Pesquisas recentes corroboram essa visão de que o gesto está atrelado à decodificação cognitiva. Um estudo publicado na revista científica Animal Cognition (Eötvös Loránd University) observou que cães com alta capacidade de memorização de vocabulário inclinavam a cabeça com frequência significativamente maior ao ouvir o nome de seus brinquedos favoritos em comparação a cães comuns.
O dado reforça que o movimento ocorre quando o cérebro do animal busca associar aquele som a uma memória ou comando.
A veterinária e professora Anita Silva, também da Newton Paiva Wyden, ratifica que a entonação humana tem papel central nesse estímulo. “A inclinação parece estar relacionada à atenção e ao processamento do que o animal está ouvindo. Tons mais agudos e entusiasmados chamam a atenção e podem fazer o animal tentar interpretar melhor aquele estímulo”, ressalta.
A especialista pontua ainda que a reação do animal pode ser uma tentativa de correlacionar som e visão. “Cães conseguem reconhecer algumas palavras e perceber a entonação. Estudos mostram que a inclinação pode ocorrer com mais frequência diante de palavras que o animal conhece. A participação das expressões faciais é possível, mas ainda não está totalmente esclarecida”, acrescenta Anita.